sexta-feira, dezembro 01, 2006

Sobre as famosas aulas de substituição...

Ontem, como é habitual fui chamado para dar uma aula de substituição. A minha formação é em Ensino de Física e Química para o 3º ciclo do Ensino Básico e Secundário. No entanto, agora, podemos ser chamados para ir substituir um professor do 2º ciclo. Foi isto que aconteceu ontem, tendo eu ido substituir um professor de Ciências Naturais do 5º ano.

Realmente, quando se fala em preparar um aula, pensamos num plano de aula estruturado para uma turma com a qual já temos estabelecido uma relação pedagógica. Ora, quando ficamos a saber, na própria hora, que temos de ir substituir um professor que faltou, ou que temos de ir desenvolver, com uma turma desconhecida, actividades de ocupação educativa, o tal plano de aula estruturado e a tal relação pedagógica nunca pode ser adequadamente estabelecida.

Bom, poder-se-á dizer que mais ou menos podemos procurar desenvolver alguma actividade educativa, porque temos formação para isso. Sim, é verdade, mas não com os alunos que temos.

Pegando no exemplo da turma de ontem, trata-se de uma turma de 5º ano, na qual podemos identificar meia dúzia de elementos considerados problemáticos. Se alguém viu uma reportagem do TeleJornal da TVI sobre "Perturbação de hiperactividade com défice de atenção" ou conhece minimamente esta "nova doença" das crianças do presente, posso dizer que alguns deles sofriam deste problema. Mesmo com uma actividade proposta que eu estava a orientar os alunos a realizar, a maioria deles não se conseguia concentrar nessa tarefa ou então simplesmente não sossegava.
Um aluno chegou mesmo a fazer tudo, desafiando a minha autoridade de professor para que eu o enviasse para a "rua" que agora significa ir para a sala de estudo. Percebi isso, e como consegui que ele, mais ou menos correctamente, lá fosse realizando a sua tarefa, consegui mantê-lo na sala durante 1h30m.
Outro aluno, nitidamente com necessidades educativas especiais, para o qual a "Ficha de trabalho" era uma actividade que precisava de ser desenvolvida com apoio individual do professor porque saber ler, por exemplo, é coisa que ele não sabia. Mas, quero recordar que é só um professor para vinte e tal alunos! Mas, mesmo a fazer barulhos estranhos e outras coisas, lá fui conseguindo que ele fizesse algo da sua tarefa.

No entanto, o mesmo não aconteceu com outro aluno, que desde o início da aula esteve a "brincar" com a realização da tarefa, perturbando a aula, falando alto e demonstrando aquela atitude de gozo tal natural nos miúdos de hoje. Depois de avisado por diversas vezes, não melhorou como os seus colegas e por isso decidi enviá-lo para a sala de estudo com falta de comportamento. Qual acham que foi a atitude deste aluno? Ficou arrependido e foi humildemente para a sala de estudo?

Errado!
Em primeiro lugar, recusou-se a sair. Tive de ser mais uma vez firme e referir que ele estava a cometer um segundo erro que lhe podia ser ainda mais prejudicial. Teve mesmo de sair da sala e ir para a sala de estudo, claramente contrariado e sem qualquer tipo de humildade!
A partir daí a aula correu melhor.

Mas a história não termina aqui. No final da aula, o mesmo aluno, aparece-me na sala e pede-me desculpa. Fiquei realmente admirado mas aceitei o seu pedido de desculpas, como é óbvio porque é uma atitude correcta e não é todos os dias que isto acontece. Conversei com ele também sobre o seu comportamento esperando que não se voltasse a repetir.

No entanto, ao chegar à sala de professores fiquei a saber o que se tinha passado com este aluno na sala de estudo. Chegou lá revoltadissímo com o professor (comigo), a quem não se inibiu de chamar nomes e mais grave de tudo, de quem chegou a dizer: "Vou matá-lo com uma facada!"
Ora a professora da sala de estudo, assustada com esta afirmação, decidiu levar o aluno ao Conselho Executivo. Foi então que o aluno foi levado a reconhecer o seu erro, a gravidade das suas afirmações e por isso me foi pedir desculpa no final da aula.

Se tiver havido sinceridade no pedido de desculpas deste aluno, a história termina bem porque um conjunto de professores trabalhou para que alguns valores fossem incutidos na mente de um aluno. É esta, cada vez mais, a sua difícil função, para além de ensinar.

6 comentários:

Eduardo Nuno Fonseca disse...

Vitor, a minha compreensão e solidariedade sincera; infelizmente já passei por situações similares e sei bem do desgaste associado; cada vez mais acredito que um dos problemas centrais do Ensino Básico público urbano e sub-urbano é a atmosfera moral e cívica. enquanto tal não for encarado com frontalidade e seriedade a qualidade geral das aprendizagens não mudará substancialmente e estaremos a formar pessoas muito áquem; Que Deus possa dar-te sabedoria e clarividência num sistema assim e discernimento para o teu futuro. Abraço, NF

Eduardo Nuno Fonseca disse...

Hoje no DN, quer o editorial (Escolas), quer um artigo (Substituição é regra nos países desenvolvidos) aborda a questão das Aulas de Subst.
vale a pena ler; creio nesse sentido que o testemunho de VM tb deveria incorporar a análise pública (V, envia p os jornais). NF

rui miguel duarte disse...

Olá, Vítor.
No ano passado também passei experiência da substituição. E pela sensação de os professores serem reduzidos a vigilantes. Não tive, contudo, experiência tão marcante como essa tua. Safa!…

Queria fazer-te uma pergunta técnica? Como se pode colocar no blog ficheiros de música e de vídeo? De imagem, já sei.
Um abraço.

Anónimo disse...

Um aluno do 5.º ano que "chama nomes" aos professores, ameaça de facadas e não consegue tomar atenção à aula, não consegue perceber que tem que pedir desculpas pelos seus actos porque é coagido a tal.
Certamente, traz problemas educacionais e afectos por detrás que o levam a esses comportamentos, e, portanto, não são meras atitudes correctivas que lhe "tratam da súde".
Precisa essencialmente de amor, ou antes como Vygotsky, um grande autor sobre a educação, diria: precisa de uma zona proximal.
Os profesores são verdadeiros herois, porque têm vinte e tal alunos para gerir que impossibilita logo à partida essa "zona proximal" e por outro, se exercem afectividade, ficam vulneráveis.
Enfim...
muito ahvia a debater.
God bless you.
T.

Adilson C. Marques disse...

Vitor, Compreendo perfeitamente as tuas palavras. Sinceramente, não tenho fé nos nossos alunos. As mudanças sociais têm produzido um "ambiente" óptimo para a manifestação do que de pior os alunos têm, como seres humanos e pecadores. Em relação ao título, não sei se lhe colocaste um sentido pejurativo, mas defendo as aulas de substituição, ainda que não nos moldes actuais, pois os países mais ricos e desenvolvidos já as têm há muitos anos e têm sido um sucesso. Um abraço.

Anónimo disse...

Já passei por um caso semelhante, numa aula "normal". Na altura estava grávida do meu filho e a insinuação foi para o bebé! Apesar de admoestado, não houve qualquer pedido de desculpa,só ressentimento. Era um aluno que diziam ter perfil de psicopata...Não sei se era ou não, apenas sei que precisava de receber uma libertação de Jesus. E quantas vezes noutras situações tenho orado a Deus interiormente para que Deus os ajude!